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Inteligência artificial na gestão de contratos: o que já funciona e o que ainda é promessa

Quem trabalha com licenciamento de marcas sabe que o contrato não termina quando é assinado. Começa aí. Prazos de relatório de royalties, aprovações de arte, mínimos garantidos, janelas de renovação, obrigações de sell-through. Em um portfólio com dezenas de contratos ativos, monitorar tudo isso manualmente é um exercício constante de risco.

É nesse contexto que a inteligência artificial começa a fazer sentido prático para o setor, e é o que quero abordar neste artigo.

O problema que a IA está resolvendo

Contratos de licenciamento têm uma característica que os torna especialmente difíceis de gerenciar em volume: eles são densos, cheios de obrigações distribuídas ao longo de cláusulas que precisam ser monitoradas em paralelo, por vezes durante anos.

Pesquisas indicam que equipes jurídicas e de contratos gastam entre 60% e 80% do seu tempo em tarefas rotineiras de revisão (ContractSafe). Em empresas de licenciamento, isso se traduz em horas dedicadas a checar planilhas manualmente, enviar lembretes de prazo e comparar versões de contratos para identificar o que mudou entre uma renovação e outra.

A redução do tempo gasto com checagens manuais é um dos grandes ganhos com IA e automatização dos processos.

A IA entra justamente aqui: automatizando a parte mecânica para liberar tempo para o que exige julgamento humano.

O que já funciona hoje

Extração e organização de informações

A aplicação mais madura e confiável da IA em contratos é a extração e organização de informações. Ferramentas de processamento de linguagem natural conseguem ler um contrato de licenciamento, identificar cláusulas específicas como prazo, território, royalty, mínimo garantido e obrigações de reporte, e organizar essas informações em campos estruturados e pesquisáveis.

Na prática, isso significa que um gestor pode perguntar “quais contratos vencem nos próximos 90 dias?” ou “quais licenciados têm obrigação de relatório mensal?” e receber a resposta em segundos, sem precisar abrir cada documento.

Os Assistentes Pessoais estão mais inteligentes, dinâmicos e adaptados ao perfil dos gestores.

Esse tipo de funcionalidade faz ainda mais sentido quando a IA está integrada a uma plataforma já estruturada para o licenciamento. O Destra Performa, desenvolvida por nós para gestão de contratos de licenciamento de marcas, é um exemplo disso: com royalties, obrigações, relatórios e indicadores centralizados em um único ambiente, a IA encontra os dados já organizados para trabalhar.

Monitoramento de obrigações

A IA identifica os compromissos de cada parte dentro do contrato e os conecta a sistemas de alerta e acompanhamento. Para quem gerencia um programa de licenciamento com múltiplos licenciados, isso elimina a dependência de planilhas manuais para controlar quem entregou o quê e quando.

Organizações que implementaram esse tipo de solução relatam redução de até 50% no tempo de ciclo contratual e queda de 60% em disputas pós-assinatura.

Revisão e comparação de minutas

Ferramentas atuais conseguem comparar uma nova proposta contratual com um template padrão, identificar onde o texto diverge e sinalizar pontos que precisam de atenção. Isso acelera o processo de revisão e reduz o risco de cláusulas problemáticas passarem despercebidas.

Onde a tecnologia ainda tropeça

Interpretação de contexto

A IA é boa em identificar que uma cláusula existe. Ela ainda tem dificuldade em avaliar se aquela cláusula faz sentido estratégico para o negócio em questão. Uma exclusividade territorial ampla pode ser um risco ou uma vantagem dependendo do momento da marca, do mercado e da relação com o licenciado. Esse tipo de julgamento continua sendo humano.

Negociação

Há ferramentas que sugerem redações alternativas para cláusulas contestadas, e elas são úteis como ponto de partida. Mas a dinâmica de uma negociação envolve relacionamento, histórico e percepção de valor que nenhum modelo consegue capturar completamente.

O trato humano ainda é imprescindível para uma boa condução do processo de negociação.

Qualidade dos dados de entrada

A IA trabalha com o que recebe. Contratos mal digitalizados, com formatação inconsistente ou linguagem muito específica do setor podem gerar extrações incorretas. Implementar IA em gestão de contratos sem antes organizar o repositório de documentos é uma receita para resultados pouco confiáveis.

O que avaliar antes de adotar qualquer ferramenta

Antes de contratar qualquer plataforma, vale responder três perguntas básicas.

Primeiro: qual é o problema que você quer resolver?

Extração de dados, monitoramento de obrigações e revisão de minutas têm soluções diferentes. Ferramentas que prometem fazer tudo ao mesmo tempo costumam fazer tudo pela metade.

Segundo: como estão seus contratos hoje? 

Se estiverem em PDFs digitalizados sem padronização, o primeiro investimento é em organização, não em IA.

Terceiro: quem vai validar as saídas da ferramenta?

A IA lida com a execução. O julgamento estratégico e a responsabilidade final continuam sendo humanos. Definir isso antes da implementação evita que a ferramenta vire um substituto para o que deveria ser uma camada de apoio.

Um caso real: como a Destra automatizou o ciclo completo de contratos

A teoria se torna mais concreta quando aplicada a um caso real. O processo de contratos da Destra foi automatizado de ponta a ponta, cobrindo desde a validação de minutas até o input de dados no software de gestão.

O fluxo funciona assim:

I. a partir da movimentação de um card no CRM, o sistema dispara automaticamente o contrato para validação pelas partes envolvidas, garantindo o olhar humano necessário antes da assinatura.

II. Com a aprovação feita, uma integração via API envia o documento para assinatura digital sem qualquer transferência manual de dados, um processo que antes consumia horas do time de contratos.

III. Após a assinatura, uma IA lê o documento, extrai as informações relevantes e alimenta diretamente o Performa.

O resultado prático: três horas liberadas por dia do time de contratos, antes ocupadas com tarefas operacionais. O que sobrou para as pessoas foi justamente o que a IA ainda não faz bem, a análise, o julgamento e as decisões que exigem experiência humana

O que esperar nos próximos anos

A evolução mais relevante em curso é a transição de ferramentas que respondem perguntas para ferramentas que executam tarefas completas de forma autônoma. No contexto de contratos, isso significa sistemas capazes de identificar uma obrigação vencida, notificar a parte responsável, registrar a resposta e atualizar o status, tudo sem intervenção manual.

Para o mercado de licenciamento especificamente, o potencial mais interessante está na integração entre gestão de contratos e dados de performance

Cruzar automaticamente o relatório de sell-through de um licenciado com as obrigações contratuais e sinalizar divergências é algo que hoje ainda depende de trabalho manual em muitas operações. É exatamente o tipo de tarefa que a IA resolve bem, e onde as primeiras soluções especializadas para o setor devem surgir nos próximos anos.

O ponto de partida, para quem quer avançar com responsabilidade, é simples: comece pelo problema mais claro, meça o resultado e expanda a partir daí.

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